Natal: o Menino que a burguesia crucifica todos os anos

Por: Carlos Lobato
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O Natal, tal como apropriado pela elite burguesa, é talvez uma das maiores farsas ideológicas do capitalismo tardio. Celebra-se o nascimento de um menino pobre enquanto se nega, na prática cotidiana, tudo aquilo que esse menino representou. Jesus nasceu fora do mercado, fora da propriedade privada, fora do conforto — nasceu à margem. E foi exatamente por isso que se tornou perigoso.

A burguesia comemora o Natal com vitrines iluminadas, mesas fartas e discursos vazios sobre “solidariedade”, enquanto sustenta um sistema que transforma a vida humana em mercadoria. O presépio foi substituído pelo shopping center; o pão partilhado, pela ostentação obscena; a mensagem, pelo lucro. Marx já denunciava esse mecanismo ao afirmar que “o capital vem ao mundo escorrendo sangue e lama por todos os poros”. O Natal burguês é esse sangue disfarçado de laço vermelho.

Jesus fez uma opção clara e irreversível pelos filhos da pobreza. Não foi neutro. Não foi conciliador. Enfrentou os mercadores do templo, denunciou os ricos que acumulavam enquanto os pobres passavam fome, e afirmou sem rodeios: “não se pode servir a Deus e ao dinheiro”. A teologia do mercado, essa religião do lucro, é a negação absoluta do Evangelho. É o bezerro de ouro reeditado em forma de banco, corretora e fundo de investimento.

Do ponto de vista marxista-leninista, o Natal revela sua contradição central: celebra-se simbolicamente a pobreza enquanto se reproduz materialmente a exploração. A mais-valia — esse roubo cotidiano do trabalho alheio — é a verdadeira estrela que guia a elite. Lenin foi preciso ao lembrar que “não há nada mais hipócrita do que a moral pregada pelos exploradores”. A caridade natalina é o álibi moral de quem se recusa a abrir mão dos privilégios estruturais.

Jesus, se nascesse hoje, não estaria nos camarotes climatizados, nem nas colunas sociais. Estaria nas filas do SUS, nas periferias abandonadas, nos cortiços, nos campos devastados pelo agronegócio predatório, nos corpos exauridos pelo trabalho precarizado. E seria novamente perseguido — agora não por fariseus apenas, mas por CEOs, rentistas e políticos a serviço do capital.

Rosa Luxemburgo advertia que a sociedade capitalista caminha entre “socialismo ou barbárie”. O Natal burguês escolheu a barbárie: transforma a fé em produto, a esperança em marketing e a dor dos pobres em cenário decorativo. Bertolt Brecht, com sua lucidez cortante, já ensinava: “a fome é curável, a exploração é incurável enquanto houver quem explore”. Celebrar o Natal sem enfrentar a exploração é cúmplice dela.

O verdadeiro Natal é subversivo. É luta de classes. É pão repartido, não esmola humilhante. É justiça social, não piedade seletiva. É a negação radical da lógica da acumulação. Como escreveu Eduardo Galeano, “a caridade é humilhante porque se exerce verticalmente; a solidariedade é horizontal”. Jesus foi solidariedade encarnada — e por isso foi crucificado.

Enquanto a elite burguesa continuar vivendo da mais-valia, da destruição da dignidade humana e da pilhagem dos corpos e territórios, todo Natal será um insulto aos pobres que o menino de Belém veio defender. Celebrar o nascimento de Jesus exige mais do que árvores enfeitadas: exige derrubar os templos do capital e devolver ao mundo aquilo que lhe foi roubado.

Fora disso, é apenas mais um Natal crucificando Cristo — agora em suaves prestações sem juros.
Apesar de tudo, Feliz Natal, menino Jesus!

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Carlos Lobato é Advogado, psicólogo e jornalista.

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