Poucas expressões carregam tanta violência simbólica quanto “o cu do mundo”. Não é apenas um xingamento geográfico. É uma sentença. Um carimbo histórico imposto a territórios, povos e existências que o centro decidiu não enxergar. Dizer que alguém vive no cu do mundo é expulsá-lo da cartografia do valor, é empurrá-lo para fora da narrativa do progresso, da civilização e do futuro.
Sob a ótica geopolítica, o “cu do mundo” é sempre o lugar do outro. Nunca é onde está o poder, o capital, os holofotes. É o Norte distante do Sul, o interior em relação à capital, a periferia em relação ao centro, a colônia em relação ao império. A Amazônia já foi chamada assim. O sertão já foi chamado assim. O Amapá, tantas vezes, foi tratado como se estivesse fora do mapa — não por acaso, mas por projeto. O “cu do mundo” nasce quando o Estado chega tarde, mal ou apenas com a farda, o imposto e a punição.
Sob a ótica sociológica, a expressão revela a hierarquia da dignidade. Ela estabelece quem importa e quem pode ser esquecido. É a linguagem crua da desigualdade: saneamento precário, escolas improvisadas, estradas que acabam antes do destino. O “cu do mundo” não é distante por acaso — é mantido distante para que continue servindo sem falar, existindo sem reclamar.
Mas é na linguagem que a expressão revela sua face mais brutal. O uso da palavra “cu” não é gratuito. Ela remete ao que a sociedade considera baixo, sujo, indecente, invisível. Ao nomear um lugar assim, o discurso dominante diz: vocês são o resto. É a pornografia do desprezo travestida de piada.
É nesse ponto que Caetano Veloso entra como ruptura. Na canção “O Cu do Mundo”, ele não reproduz o insulto — ele o desmonta. Caetano toma a expressão e a devolve ao mundo como espelho. Sua música não fala apenas de um lugar físico, mas de um estado existencial: o sujeito que percebe que o mundo civilizado, elegante e progressista também produz exílio, solidão e brutalidade.
Em Caetano, o “cu do mundo” deixa de ser só periferia geográfica e passa a ser condição humana. Pode estar em Nova York, Salvador, Londres ou no interior do Brasil. Está onde há exclusão, onde o afeto falha, onde o indivíduo se sente fora do eixo da história. A canção transforma o palavrão em conceito e o conceito em poesia. É subversão pura: aquilo que era ofensa vira reflexão.
Sob a ótica filosófica, o “cu do mundo” é o lugar do abandono, mas também da possibilidade. Hannah Arendt lembraria que é nas margens que o novo pode surgir. Walter Benjamin diria que é dali que se observa melhor a catástrofe do progresso. Quem vive no “cu do mundo” enxerga o centro sem ilusões.
E há ainda a ótica da resistência. Porque, paradoxalmente, é no “cu do mundo” que nascem culturas potentes, linguagens próprias, músicas, mitos e modos de sobrevivência que o centro jamais conseguiu produzir. O que o poder chama de atraso, a história muitas vezes revela como reserva moral, cultural e humana.
No fim, talvez o “cu do mundo” não seja um lugar fixo no mapa, mas um diagnóstico moral. O mundo tem muitos “cus” — e quase todos foram criados pela soberba de quem se imagina cabeça. Caetano entendeu isso antes de muitos sociólogos: ao cantar o palavrão, ele expôs a hipocrisia da civilização e devolveu dignidade ao que tentavam reduzir a lixo.
Porque, às vezes, é justamente do “cu do mundo” que vem a voz mais lúcida sobre o próprio mundo.
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*Carlos Lobato é jornalista, advogado, psicólogo e analista politico



